SOBRAL

Senador Cid Gomes deixa a UTI de hospital após ser baleado em manifestação de policiais no Ceará

Cid Gomes (PDT-CE) foi baleado na tarde desta quarta-feira (19) em um motim de policiais para reivindicar aumento salarial em Sobral.

20/02/2020 10h15
Por: São Bento em Foco
Fonte: G1

O senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) deixou a UTI do Hospital do Coração de Sobral, no interior do Ceará. Cid recebeu alta para a enfermaria, onde seguirá internado. De acordo com boletim divulgado pela unidade na manhã desta quinta-feira (20), o quadro de saúde do senador licenciado "evoluiu sem intercorrência nas últimas horas, mantendo-se hemodinamicamente estável e com padrão respiratório normal".

Cid Gomes (PDT-CE) foi baleado na tarde desta quarta-feira (19) em um motim de policiais para reivindicar aumento salarial em Sobral. Cid pilotava uma retroescavadeira e tentava furar um bloqueio feito por policiais no 3º Batalhão da Polícia Militar do município.

O boletim médico, divulgado às 8h40, não informa se o senador receberá alta hospitalar. Também não há informações sobre uma possível transferência de Cid Gomes para outra unidade de saúde do estado.

O ex-governador Ciro Gomes, irmão de Cid, disse na quarta-feira, em uma rede social, que o senador licenciado "não corre risco de morte", foi atingido por "dois tiros de arma de fogo" e que os disparos "não atingiram órgãos vitais apesar de terem mirado seu peito esquerdo".

Inicialmente, a assessoria do senador licenciado disse que ele havia sido atingido por uma bala de borracha. Depois, foi informado que o tiro, na verdade, foi disparado por uma arma de fogo.

Cid Gomes organizava uma ação contra um grupo de policiais que tentava impedir o trabalho da Polícia Militar no batalhão de Sobral. Pessoas encapuzadas esvaziaram pneus de carros da polícia para impedir o trabalho dos agentes de segurança na ruas.

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram o momento em que Cid Gomes tenta furar o bloqueio com a retroescavadeira e, logo depois, uma pessoa faz os disparos em direção ao senador licenciado. Os vidros do veículo também foram quebrados.

Em outras imagens registradas no local após a confusão, o senador licenciado aparece consciente e com a blusa manchada de sangue.

 

'Vocês têm cinco minutos'

Em frente ao bloqueio dos policiais, utilizando uma retroescavadeira, ele pediu que os policiais deixassem o local: "Vocês têm cinco minutos pra pegarem os seus parentes, as suas esposas e seus filhos e sair daqui em paz. Cinco minutos. Nem um a mais", afirmou Cid, em um megafone.

Na tarde da quarta-feira, Cid Gomes postou nas redes sociais que estava em Fortaleza e que chegaria a Sobral no mesmo dia, por volta das 16h. No vídeo, ele afirmou que "quem deveria dar segurança para o povo está promovendo a insegurança, promovendo a desordem" e disse ainda que iria "definir uma estratégia para dar paz". Sobral é também a cidade natal de Cid Gomes.

Ainda na tarde da quarta, policiais de Sobral ordenaram que comerciantes fechassem as portas do Centro da cidade.

O 3º Batalhão de Sobral funciona de forma parcial na manhã desta quinta-feira, com parte das equipes atuando nas ruas. A retroescavadeira utilizada por Cid Gomes permanece na entrada do local. Após a confusão, a Secretaria da Segurança Pública do Ceará informou que agentes do Comando de Polícia de Choque (CPChoque) foram direcionadas ao batalhão e os agentes que estavam no local fugiram. Equipes do Comando Tático Rural (Cotar) do CPChoque também ocuparam o batalhão.

Investigação policial

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará diz que o crime contra o senador licenciado será investigado pelo Núcleo de Homicídios da Delegacia Regional de Sobral da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE). Segundo a nota, a Polícia Federal e a Polícia Civil vão atuar em conjunto e uma equipe do Grupo de Pronta Intervenção (GPI) da PF irá para Sobral. Ainda não há informações em relação a uma eventual prisão ou identificação do autor dos disparos.

O ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) autorizou nesta quarta-feira o envio da Força Nacional para o Ceará por 30 dias, contados a partir desta quinta (20). Antes, o ministério já havia comunicado que enviou equipes da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Federal "para garantir a segurança do senador Cid Gomes".

"A operação terá o apoio logístico do órgão demandante, que deverá dispor da infraestrutura necessária à Força Nacional de Segurança Pública", detalha o texto da portaria.

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT-CE), diz que já havia solicitado formalmente o apoio de tropas federais para o Ceará aos ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo da Presidência) e Sergio Moro (Justiça e Segurança) para uma "ação enérgica contra essas pessoas que têm agido como criminosas".

Santana afirma ainda que é "inacreditável a extrema violência sofrida pelo senador Cid Gomes, atingido por dois tiros, hoje, em Sobral" e que a violência foi "provocada por um grupo de policiais mascarados, amotinados num quartel".

Repercussão

Em nota, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que acompanha o caso "com preocupação" e que solicitou informações ao ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança) e ao governador Camilo Santana (PT-CE) para "obter informações e garantir a segurança" de Cid.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou uma nota em que condena tanto "a escalada de confronto e violência" com os disparos contra Cid Gomes quanto os atos de "agentes mascarados aterrorizando a população e ordenando o fechamento de estabelecimentos comerciais". "Neste momento, faz-se necessário que autoridades, associações e representantes das instituições policiais tenham serenidade e responsabilidade para encontrar saídas pacíficas e dentro da legalidade."

O prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT), usou as redes sociais para se pronunciar sobre o tumulto. O gestor da capital falou sobre o "espírito público" de Cid e demonstrou indignação pelos "atos inaceitáveis de criminalidade", referindo-se aos atos de alguns policiais militares em protesto por reajuste salarial.

Resumo:

  • Em 5 de dezembro, policiais e bombeiros militares organizaram um ato reivindicando melhoria salarial. Por lei, policiais militares são proibidos de fazer greve.
  • Em 31 de janeiro, o governo anunciou um pacote de reajuste para soldados.
  • Em 6 de fevereiro, data em que a proposta seria levada à Assembleia Legislativa do estado, policiais e bombeiros promoveram uma manifestação pedindo aumento superior ao sugerido.
  • Em 13 de fevereiro, o governo elevou a proposta de reajuste e anunciou acordo com os agentes de segurança. Um grupo dissidente, no entanto, ficou insatisfeito com o pacote oferecido.
  • Em 14 de fevereiro, o Ministério Público do Ceará (MPCE) recomendou ao comando da Polícia Militar do Ceará que impedisse agentes de promover manifestações.
  • Em 17 de fevereiro, a Justiça manteve a decisão sobre possibilidade de prisão de policiais em caso de manifestações.
  • Em 18 de fevereiro, três policiais foram presos em Fortaleza por cercar um veículo da PM e esvaziar os pneus. À noite, homens murcharam pneus de veículos de um batalhão na Região Metropolitana.
  • Em 19 de fevereiro, batalhões da Polícia Militar do Ceará foram atacados por grupos de pessoas encapuzadas e mascaradas. Em Sobral, homens encapuzados em carro da PM ordenaram que comerciantes fechassem as portas.

Invasão de batalhões policiais

Um grupo de policiais que reivindica aumento salarial e é contrário à proposta do governo de reestruturação da carreira da categoria realiza desde terça-feira (18) atos que a Secretaria da Segurança do Ceará considera "vandalismo" e "motim".

Ainda nesta terça, três policiais foram presos por cercarem veículo da polícia e furarem os pneus. Segundo o governo do estado, o ato é uma tentativa ilegal de impedir a atuação de policiais.

Nesta quarta-feira, pelo menos quatro batalhões da Polícia Militar foram invadidos por homens mascarados. Eles retiraram veículos policiais das bases militares e rasgaram os pneus com objetos cortantes.

O governo do estado anunciou a abertura de processo disciplinar contra mais de 200 policiais dissidentes. Também anunciou que solicitou o reforço da Força Nacional e cortou o repasse de verba para associações policiais que, de acordo com o governo, apoiam os atos grevistas.

Reivindicação salarial

Parte dos policiais do Ceará realiza atos por reivindicação de aumento salarial. Uma proposta do governo do estado tramita na Assembleia Legislativa do Ceará é elevar o salário-base de um soldado dos atuais R$ 3,2 mil para R$ 4,5 mil. O aumento de R$ 1,3 mil ocorre de forma progressiva, até 2022.

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